A convivência com determinadas pessoas enriquece a nossa história de vida. E não posso deixar de confessar que faz parte da riqueza da minha sensibilidade, bem como de toda a minha Guiricema, a figura do querido Luiz Polidoro.   
      Era muito brincalhão, amado de todos. Identificávamo-lo a qualquer distância pelo riso largo e pela voz peculiar. Dono de pensamento criativo, inteiramente entusiasmado pela vida, era muito prestativo para com todos.   
      Enternecia-se diante de todo e qualquer ser humano e, incontáveis vezes, demonstrou ser detentor de alma sensível. Liberto dos grilhões que, geralmente, aprisionam os homens, vivia sem egoísmos e sem rancores, motivadores de rugas. Encabeçava inúmeras campanhas filantrópicas. Altamente simpático, tinha uma sabedoria ímpar para angariar recursos materiais e cobrir de êxitos suas investidas na tentativa de tornar a vida dos necessitados mais amena.   
      Constantemente, era o Presidente das festas religiosas, a começar pelas festividades da Padroeira, Nossa Senhora da Encarnação, o que resultava sempre em sucesso. Quase não se faziam quermesses, carnavais, campeonatos futebolísticos ou quaisquer manifestações para o bem e a alegria de alguém, sem que ele fizesse parte ou encabeçasse a lista dos responsáveis pelo evento.  
      Antes disso tudo, era um ardoroso pai de família. Casado com Dona Maria, esposa, companheira e cúmplice dos afazeres do marido, tiveram os filhos: Júnior, Luciano (meu pajem quando me casei), Fernando e Aparecida. Aloísio, o mais velho, foi nascido de outra união. 
      Luiz Polidoro fora funcionário público. Quando eu fazia o meu curso primário, ele era funcionário da E. E. Coronel Luiz Coutinho, função na qual tomara posse no dia dez de julho de 1940. Aposentou-se no dia três de outubro de 1967, no cargo de contínuo-servente.  
      Lembro-me dele cuidando da disciplina dos alunos no pátio, com disposição e bom humor. Era com muita energia que ele organizava as filas indianas, modo através do qual nos dirigíamos   à  sala de aula, no início das atividades escolares de todos os dias e no reinício das mesmas, após o recreio. A ordem reinava. Nada de brincadeiras. Era um tempo de muita rigidez com o comportamento dos estudantes. Polidoro era respeitado, mesmo quando ria e brincava conosco. Ele podia dar-se a esse desfrute, nós, não.   
      Sempre com uma agilidade espantosa, ele cuidava da limpeza do pátio. Passa, no vídeo acelerado pela minha memória, a imagem desse senhor cuidando para que, mesmo durante o intervalo das aulas, os alunos não desrespeitassem o local de estudo, atirando lixo em qualquer lugar. A esses displicentes, ele apontava a lixeira. Recolhia papéis que os desavisados, ou engraçadinhos, que não identificara, de modo que preocupação com o meio ambiente era com ele mesmo. Depois, quase que num piscar de olhos, de vassoura em punho, ele procedia à limpeza do que era necessário. A postura física dele colaborava para essa esperteza, já que era alto e magro, além de saudável e de bem com a vida.  
      Além da prestação de serviços inerentes à sua função, Polidoro também levava a efeito muitas campanhas em prol da melhoria do funcionamento da escola, no que se referia à complementação da merenda escolar, à aquisição de material didático e a pequenas melhorias e manutenção do prédio da escola. Fazia isso com a simpatia e o apoio das professoras e da Diretora, Dona Dila de Almeida e Silva Sampaio.   
      Encerrado o primeiro turno na escola, Luiz Polidoro partia para sua outra função: para os abastados e remediados, era o portador dos depósitos bancários em Visconde do Rio Branco, assim como do pagamento de prestações e era o responsável por pequenas e até consideráveis transações comerciais que a ele eram confiadas por pessoas físicas e jurídicas, com toda tranquilidade. Fazia compras para quantos precisavam. Era amigo dos gerentes e proprietários de lojas. Dos gerentes de Banco também, junto dos quais era intermediário para que muitos guiricemenses conseguissem empréstimos que aliviassem os atropelos financeiros de momentos de sufoco.   
      Assim, para Visconde do Rio Branco, ele viajava todos os dias, carregado de encomendas de todos os tipos. Seguia sempre no ônibus do horário das onze e quinze (há muito extinto). Regressava à tardinha, trazendo, entre outras coisas, diversos pacotes de pão (o que era irônico e pouco agradável para a nossa cidade...). Trazia também os jornais do dia. Tinha o trabalho de parar, de porta em porta, para entregar recibos, trocos, colher assinaturas, entregar pacotes e outras encomendas, cuidadosamente.  
      Ria muito com cada um dos interpelados que o ocupavam. Contava casos entremeados de gargalhadas. Era extrema a sua servidão, embora pouca recompensa recebesse para tal. Viam--se-lhe a dedicação e o prazer pelo fato de ser útil ao seu semelhante. E ele era um cidadão guiricemense muito cobiçado pelos rio-branquenses, que gostavam dele como se nascido lá fora. Lá, como aqui, todos lhe queriam muito bem.  
      Amante de futebol e da Banda de Música “Amantes da Lyra”, era incentivador dos dois em Guiricema. Olhem o nome dele na ata de fundação do Independente Futebol Clube. E, se aguçarem os ouvidos, vão ouvi-lo repicando algum instrumento na charanga do Independente. Ou, quem sabe, já vestiu as calças branquinhas, impecavelmente passadas, ajeitou no corpo a camisa vermelha e enlaçou com gestos precisos a gravata branca, verificando a perfeição do colarinho para proceder à sinfonia celestial, ao lado de tantos que se foram como meu tio Chico e meu tio Fiinho. Para esses, as nuvens brancas, são páginas onde eles escrevem as partituras musicais, as quais, nas noites claras, se transformam nessas estrelas que a mim me revelam todo o mistério da eternidade e me deixam claro que a morte não é o fim do homem


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