O Sol acabava de abrir os olhos e mostrar sua face amarelinha para beijar a Terra. Com um sorriso travesso, vinha esparzindo os seus raios com a intenção maldosa de acordar a cidade sonolenta. De repente, tudo foi- se aquecendo. Era como se hou-vessem cortado a fita para fazer uma reverência ao céu. A vida reinaugurava-se com um tom inovador na atmosfera da manhã. De repente, a praça foi recebendo as pessoas. Tratava-se de um ruído movimentoso de pernas e braços, seguindo o compasso da sonoridade vibrante de uma banda de música. Nem se as melodias estivessem em tom menor, não as acharíamos tristes. O fato é que estávamos em um 7 de setembro. Os músicos, de vermelho e branco, abririam o desfile para homenagear a data. Por isso, faziam um breve ensaio da apresentação.   
        Da janela da minha residência, pus-me a pensar na denominação maravilhosa da banda: Amantes da Lyra. Como gosto de rever a Literatura Trovadoresca em que trovadores e menestréis entoavam cantigas ao som da lira! Uma tendência que chegara a Portugal vinda do Sul da França, da cidade de Provença, um lugar tranquilo, sem agitação e guerras. A lira deu-nos o adjetivo lírico que corresponde a sentimentalismo. O nome da nossa banda não podia ser mais poético.   
        Quem teria tido a feliz ideia desse nome? Quem idealizou essa banda? Para as respostas de tais perguntas, precisamos volver a um passado muito bonito de nossa Guiricema. Tracemos um voo mágico e façamos nossa decolagem no esquecido Arraial dos Bagres. Lá, nós encontraremos o avô do meu inesquecível professor de Português, no início do meu Curso Normal, Dr. Gastão de Almeida. Estou a falar do Sr. Batista Caetano de Almeida, cidadão brilhante que teve a feliz iniciativa de formar uma banda com os músicos que habitavam na região dos Bagres. Foi assim que nossa terra viu nascer a Amantes da Lyra , detentora de tantas glórias ao longo de suas apresentações. Não nasceu em berço esplêndido, mas em meio a uma população acanhada, um local sem luz, sem jardim, com apenas um coreto grande, embaixo do qual ficava a biblioteca pública. As mutações por que passa o mundo eram inimagináveis pela gente do nosso Arraial, entretanto aqui viviam homens ilustres, de presença extraordinária e valor imensurável. O lugarejo precisava de algo que promovesse a alegria do povoado. O que há de melhor para acordar uma rua adormecida?! Para colorir uma pequena praça sem acácias belas?! Para levantar o velho cansado que passa os dias contando as horas? E para fazer a moça sem namorado sorrir?! Fazer as noivinhas casadoiras atentarem para outra felicidade senão a de ver o eleito apear de um macho faceiro?! E ainda fazer as comportadas senhoras capricharem no próprio trato, colocando um pouco de carmim na face e um displicente batom nos lábios?! Todos saírem de casa ou se debruçarem na janela?! Só mesmo a passagem de uma banda de música. Chico Buarque já o disse. E a Amantes da Lyra fez tudo isso e muito mais. O Sr. Batista Caetano de Almeida fora sagaz na sua bela iniciativa. Foi muito feliz.  
        Por essa época, já havia aqui o espírito politizado de uma plêiade que movia o crescimento da pequena terra. Decerto que havia também os tipos populares, responsáveis pelo folclore do local através dos fios de sua telefonia novidadeira. Rosa Moreira preenchia os requisitos desse tipo comum em todos os lugares. Sô Ventura foi o nosso Capistrano de Abreu. A fonte oral da qual jorrava a história dos Bagres. Conheceu o Furriel José de Lucas e o Sr. Guido Marlière.   
        Era tudo muito simples. Muito claro. Como disse Fernando Sabino, “Mineiro só gasta dinheiro em política, o resto deixa guar-dado”, assim, nessa nossa região, havia uma política bem ativa. Era ainda emergente, mas responsável pela situação social que se instalaria no povoado. Foi essa paisagem modesta que viu nascer a Amantes da Lyra, impulso decisivo para o crescimento da localidade. Sob a batuta do maestro, Coronel Luiz Coutinho, os ensaios traziam a gente do lugarejo para o Largo, empolga-dos pelos dobrados. A criançada adorava aquelas noites em que podiam folgar até mais tarde.
        Reuniam-se o Felício, o Epaminondas, o Paulino, o Orozimbo, o Polidoro, o Perolino, o Adão, o Zé Vieira e o velho Belisário, que tocou bombo durante sessenta anos. (Minha avó falava sempre de vários deles.) Os ensaios eram junto da biblioteca, debaixo do coreto, também sede da banda. Já a Sra Theresinha de Almeida Pinto, bisneta do criador da banda, vivenciou, nos primeiros anos de infância, os ensaios da Amantes da Lyra no antigo cinema da Praça Coronel Luiz Coutinho. E era o Coronel quem cuidava, a princípio, do bem-estar dos músicos e pagava-lhes pelo trabalho prestado, além de ter comprado inúmeros instrumentos com as suas posses para que nada faltasse à sua banda de música do coração. Os músicos ocupavam parte da residência do Coronel Luiz Coutinho, onde hoje esteve situado o Armazém dos Di Mingo, hoje o mercado. São dessa época as lembranças da Sra Theresinha de Almeida Pinto que, ainda hoje, vê, nitidamente, na manhãzinha, os músicos, em fila, para lavarem o rosto e tomarem o fortalecido café da manhã, para começarem bem o dia.   
        Cumpre lembrar que os músicos usavam uniforme azul com botões dourados. Sô Gouveia era o presidente da sociedade musical, cargo que ele exercia muito bem. Entusiasmado e dedicado. E sabia fazer política.   
        Braz Oliva era o tesoureiro. Foi um grande incentivador da banda. Muito bom para os músicos também. Ele oferecia-lhes muitas festas e também não se esquecia da parte financeira dos componentes da agremiação de músicos, tal qual o Coronel Luiz Coutinho. Chegou a ceder a parte superior do sobrado da praça para funcionar a sede da Amantes da Lyra por muitos anos. Depois, nesse sobrado, morariam os descendentes do Sr. Braz Oliva, inclusive o neto dele, Braz Oliva de Souza, sogro de meu filho, Gustavo.   
        Voltando ao Braz Oliva que viera da Itália, por coincidência, possivelmente, eles passaram a cantar, naquele tempo, o refrão de uma marchinha carnavalesca que fazia uma certa alusão ao comportamento do benfeitor da Amantes da Lyra: “ Vai, vai levando,/ vai levando, pessoal / aproveitem, enquanto o Braz é o tesoureiro / que a confusão é geral...” Não se sabe onde nasceu a música: se nasceu em Guiricema e foi levada para o Rio de Janeiro ou , se nasceu lá e veio para cá. O certo é que vestiu a situação da entidade musical naquela época, já que o Sr. Braz Oliva amava tanto a nossa banda.             É  bom levar ao conhecimento dos senhores que, certa vez, o Arraial amanheceu festivo. Ruas enfeitadas com arcos de bambu. Janelas e ornamentadas. Muitos foguetes no ar .Era uma festa da família guiricemense: a chegada de Dona Vicenza, esposa do Sr.   Braz Oliva. O marido viera primeiro, depois, a esposa.   
        E, registre-se, que ele levou a vida trabalhando e dando tudo para os outros. O coração bondoso fez dele um mau negociante. Vendia fiado para não receber. Quando lhe falavam sobre isso, ele dizia: “ não recebo, mas vendo caro.” Se lhe perguntavam “por que não voltava à Itália”, o Sr. Braz respondia: “Pra quê? Tenho medo de morrer lá. Quero morrer aqui. É a minha terra. É a terra de meus filhos e de meus amigos.” Não há melhor definição para uma pessoa assim.   
        Depois, o primitivo Bagres cedeu lugar a Guiricema. Por essa época, havia dois jornais no pequeno município, o “ Minas Católica”, dirigido e redigido por padres. Era sério, doutrinário. O Sr, Adeodato de Almeida escrevia para esse folhetim sob o pseudônimo de Deodamilato. 
        Do outro lado, ficava o Reação. Era político, era de briga. Criticava. Fazia acusações. Aconteceu até de o povoado, naquele tempo, ter duas bandas: a dos Jagunços que era do hoteleiro, Augusto de Abreu, um forasteiro cujo objetivo fora liquidar com a Amantes da Lyra que era do Sr. Adeodato de Almeida, do Coronel Luiz Coutinho, do Sr. Felício Rodrigues, do Sr. Miguel Alpino, do Sr. Braz Oliva e da maioria da população. 
        Consta que essas duas bandas de música e as lutas políticas foram causa de muitas desavenças. No mês de maio, quando ia coroar uma filha de Canelalisa, tocava a sua banda; quando ia coroar uma filha de Jagunço, tocava a outra banda. Assim, havia a noite dos Canelalisas e a noite dos Jagunços. Acrescente-se a isso o desafio dos foguetes. O vigário sofria com essas disputas. E elas duraram anos. Como sempre ocorre, o tempo incumbiu-se de serenar os ânimos exaltados.   
        Foi, pois, em tempos distantes que Guiricema viu nascer essa relíquia imaterial, tão decisiva para ilustrar a memória de quem aqui nasceu ou viveu ou ainda vive entre essas montanhas. Em outras épocas, a Amantes da Lyra e seus dirigentes realizaram festas maravilhosas, principalmente, as comemorações cívicas, entre elas a do dia 7 de setembro.   
        Consta que, nesse passado, nossa banda fora uma das melhores do Estado de Minas Gerais. Fora campeã em vários concursos. Por ela passaram ilustres músicos que se destacaram , posteriormente, na Banda do Corpo de Bombeiros e na Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro.   
        Muitas pessoas sabem que o Sr. Alberto Rodrigues Silva foi trombonista do Corpo de Bombeiros; Dionísio Rosa Reis foi Mestre da Banda do Corpo de Bombeiros; Adjalme Rodrigues Silva também foi Mestre da Banda do Corpo de Bombeiros, entre muitos outros. José de Carvalho Marta, foi trombonista e mais tarde, baixista; Joaquim Carlos Toledo, trombonista e o atual maestro dessa banda tão amada.; Anélio Figueiredo, trombonista; Adolfo Antoniol, bombardinista e baixista; Belchior Pacheco, Raul de Moura, José Cordeiro, José Floriano, José Ribeiro Borges, Silvério de Battisti, Agnélio Rodrigues Silva, todos clarinetistas; Jaci Figueiredo, sax-alto; Eleotério de Carvalho sax-tenor; José Juliano de Souza, Belquino Barroso, piston; José Roque e Heitor 
 Ana Maria da Silva Moreira Barroso, um tipo de sax; Américo de Paula, Francisco Benedito e Francisco Donato eram baixistas. Belisário Cândido, Belarmino Rosa e Joaquim Carlos Cruz tocavam bombo. Alberico Barroso e José Pires Nonato foram músicos de percussão. Luiz Polidoro de Souza, pratos. E ainda Joaquim Benedito, José Gonçalves e mui-tos outros que pertenceram à época de ouro da banda Amantes da Lyra.  
        O Coronel Luiz Coutinho foi maestro e compositor dessa corporação musical por muito tempo. Compôs músicas religiosas e dobrados, fazendo com que a nossa Amantes da Lyra ganhasse tanto brilhantismo. Nosso ilustre Prefeito e o Sr. Felício Rodrigues Silva emprestaram- lhe a força do talento de que eram detentores.   
        Um dia, porém, acabou a banda dos Jagunços. E também acabou a presença do Sr. Augusto de Abreu em nossas terras .O Sr. Adeodato de Almeida estendeu- lhe a mão. Levou-o até Vis-conde do Rio Branco, são e salvo, para nunca mais voltar. Depois, ele foi para Juiz de Fora onde continuou como hoteleiro.   
        Em outra oportunidade, falo sobre o Sr. Caetano, outro italiano que não era só apaixonado pela banda, era a própria banda Amantes da Lyra. Sabia de cor todo o seu repertório. Mas, a alegria tem um tempo de duração: a banda Amantes da Lyra morreu. Como escreveu o Dr. Gastão de Almeida no livro de sua autoria: Histórias do Velho Bagres, “as bandas também morrem.” Depois desse acontecimento fatídico, o Sr. Caetano ficou triste. A vida não era a mesma. Havia mudado. No enterro desse senhor, sem a banda, os amigos levaram seus restos mortais assoviando seus dobrados preferidos e solfejando as partituras que ele tanto amava.   
        Posto isto, para a felicidade de todos, no dia 10 de abril de 1980, com a boa disposição e a humildade do Sr. Joaquim Carlos Toledo, tiveram início em uma das salas da E. E. “ Prefeito Antônio Arruda” as aulas de música. Posteriormente, passaram para a rua José Apolinário da Cruz Pena. Em 1º de agosto de 1981, foi criada, oficialmente, a Sociedade que conservava como objetivo único manter a banda de música. Registre-se aqui que o apoio Sr. João Becari foi decisivo para que esse objetivo fosse levado a efeito. E, relembrando o passado, denominaram-na “Sociedade Musical Amantes da Lira”. A tradição e a alegria voltaram a reinar em nossa cidade. No dia 7 de setembro de 1981, diante do palanque oficial, foi feita a primeira apresentação com a execução do dobrado” Capitão Caçula” (Canção do Soldado) e o dobrado” Sumaré”.  
        A partir da Semana Santa de 1982, já com seu uniforme vermelho e branco passou a abrilhantar todas as solenidades cívicas e religiosas, entre outras. No 27 de setembro do mesmo ano, fez uma apresentação oficial ao Governador do Estado, Sr. Francelino Pereira dos Santos. Com o passar do tempo, ela foi revigorando-se e voltou a fazer parte da alegria da nossa terra. Voltou a modificar o comportamento das pessoas, atraindo-as para momentos de desligamento do duro chão a que ficamos aprisionados no cotidiano.   
        Desse modo, agora, em 1986, temos de volta a nossa queri-da Amantes da Lira, uma honra para nossa tradição musical. Ela voltou com bastante vitalidade, reunindo os jovens e adultos que lhe podem dar todo o apoio necessário para que ela reconquiste o brilho de outrora. É claro que não será apenas o esforço de alguns que irá reerguê-la, mas o esforço de uma comunidade inteira para que os acordes de suas peças musicais subam aos céus como uma sinfonia celestial. Junto ao Altíssimo, o criador da Amantes da Lyra, seus incentivadores, os maestros e os músicos que já repousam na Casa do Pai, nessa manhã de mais um 7 de setembro, já vestiram o antigo uniforme azul com botões doura-dos e pegaram as partituras escritas em nuvens brancas, páginas de melodia de uma sinfonia celestial. Como tais nuvens vivem lá no espaço vagando, logo à noite, hão de transformar-se em um suntuoso vendaval de estrelas lá no céu. (7 de setembro de 1986) 


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