Meu grande amor           

      Imaginei meu grande amor assim:           
      Forte e arrebatador como o mar nas manhãs de ressaca, finda uma noite de tumultuosa procela.           
      Sutil como a inocência dos primeiros toques quando tudo se sente e tudo se quer, mas não se entrega.           
      Irreverente como a rebeldia comportada mesmo com o coração no agito desse sentimento inebriante, brisa da tarde que, se lavada de chuva, reaparece tímida como menina distante das impurezas da vida.           
      Afetuoso como mãos entrelaçadas, trêmulas de emoção e de desejo contido, nascido de uma química inexplicável...          
      E ei-lo que chega... Era inverno. Nunca me esqueceu aquele tempo. Ele viera em um tempo de andar arrebatada do chão, levadas pelas mãos do devaneio. Nossa trilha sonora eram as melodias de Paul Anka.           
      Houve serenatas ao luar, bilhetinhos apaixonados,           
      Cartas com declarações de amor,           
      Encontros no portão, beijos furtivos...           
      O tempo era mais lento, tudo tinha cheiro de eternidade.           
      Escrevíamos a nossa historia com as nossas almas plenas de alegria. Meu príncipe encantado chegara trazido pelo pássaro azul de um conto antigo. Sonhei com um posto de princesa. No meu palácio encantado, o lar que fundáramos, ele teria posturas cavalheirescas como oferecer-me flores em datas especiais, abrir-me a porta do carro, presentear-me com lembranças românticas...           
      Triste pena! Nada disso aconteceu. Onde ficara o elogio para a camisola nova? Para o perfume diferente? Para a mudança de penteado? Vestido bordado? Esmalte colorido? Elogio?! Só quando solicitado por mim. Lembrar aniversário de parentes e amigos e comprar presentes? Jamais. Muito menos saber de eletricista, encanador, esses profissionais que fazem a casa funcionar.           
      Com pouco tempo, o meu amor desenvolveu uma barriga respeitável. Escolheu um sofá para cochilar, dormir, roncar. (Culpa dos remédios para o coração, nunca de uma cervejinha).           
      Dia após dia, seguimos. Aprendi a multiplicar minhas mãos e minhas pernas. Que relógio impertinente! Por que não para um pouco?! Quadro de giz, livros, provas de alunos. Três turnos de trabalho. Nos intervalos, uma ajuda aos deveres dos filhos. Minutos divididos com roupas, varais, sabão, Bombril. Um retoque de perfeccionismo.           
      Descortinava a manhã de domingo. Um tempo para Deus e outro para a mesa farta de massa, preferência de todos.          
      Aniversário?! Longas noites entre doces e enfeites para as crianças. Para os adultos, aquele jantar trabalhoso. Findo, enquanto familiares retornavam ao lar, a louça, herdada da avó, requisitava carinho especial. E o grande amor, onde ficava esse tempo todo? Descansando, sempre descansando na poltrona que já reproduzia o perfil na opacidade do veludo. Tinha que acordar cedo no dia seguinte. E eu também.           
      E que viesse o Natal, o Ano Novo, o carnaval, a Páscoa, as visitas dos parentes... A mesa estava sempre posta e a louça sempre cuidada.                          Chegamos às Bodas de Coral. Que data mais linda! O coral fizera-se das investidas das ondas desafiantes! Quanta correnteza quisera arrastar-nos! Quanto sal nesse mar bravio que não conseguiu separa-nos!           
       Estou terminando de colocar ordem na copa, findo mais um jantar de comemoração. Todos já se foram. E a mesma voz chama-me lá do quarto: ”quando é que você vem se deitar?!” E, como sempre, eu vou depressa. Vou sair de mim leve como o ar e mergulhar nos braços do meu amor. Ele, que parece tão distante de tudo, devolve-me o fogo na alma pedinte, para que a vida se renove, há trinta e cinco anos.

  • Facebook
  • Twitter
  • Google plus