Dona Maria é uma mulher como as outras.
Que reza pelos filhos, pede a Deus e a Nossa Senhora para protegê-los e guiá-los.
E aos outros filhos que também são filhos e têm mãe.
E, principalmente, aos que não têm mãe.
Dona Maria é uma mulher que acorda na noite de olhos acesos,
Perscruta  vozes e barulhos, atenta ao destino dos outros.
Na manhã clara, agradece a Deus o milagre do mundo.
Confere as flores  que desabrocharam à noite.
Busca na fala cotidiana o entendimento da existência.
Olha o infinito e descobre Deus.
Lava as xícaras e oferece café às visitas.
Chega à varanda e cumprimenta os passantes.
Interessa-se pelas famílias e procura saber como tem passado cada pessoa.
Alisa rugas alheias e acaricia feridas com palavras de fé e de carinho.
Dona Maria é uma mulher como as outras.
Habitada por ideais singelos e pensamentos grandiosos,
invadida de compaixão pelos perdidos no encolhido do destino.
“...meu Deus, me ajude, preciso visitar doentes, colaborar com as casas de caridade...Que saudade dos meus filhos pequenos...
Preciso rezar pelas minhas noras, meus genros, meus netos, meus bisnetos...
Escuta na tarde o bater do sino.
Ouve o canto da noite na boca do vento.
Mergulhada no crepúsculo, reza à Virgem Maria.
Pede que Ela interceda pela paz no mundo.
Sente saudade dos que já se foram.
Aprecia o fino ar que se desprende das coisas criadas.
Dona Maria não se deixa seduzir pelas vaidades da vida nem pelo orgulho.
Sabe sorver a luz sumindo de mansinho e, ao vir das primeiras estrelas, abre um sorriso maior pelo dia que passou.
Pinta os lábios de batom rosa, coloca meias finas e ignora o depositado do tempo.
 Do alto dos seus oitenta e seis anos, tem sempre um abraço a distribuir, uma palavra para unir, um sorriso para repartir.
Dona Maria entendeu, delicadamente, que é uma mulher como as outras, mas, para nós e para muitos, ela é  ESPECIAL!  

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