Decorrido um século de ausência física,em 2009,  Machado de Assis continua a ser o escritor mais presente da Literatura Brasileira. Foi-se a matéria, mas ficou o espírito mais lúcido de toda a nossa cultura. Viva está a presença do bruxo do Cosme Velho nas Escolas brasileiras e no exterior, em várias etapas de estudo. Como todos os dias, hoje ele já se levantou, fez as abluções matinais, vestiu-se com requinte, com a ajuda da amada, Carolina, muniu-se de sua câmera microrrealística e saiu por ruas quietas _ ele sempre odiou multidões. Apertando os olhos míopes de tanto esforçar-se para ver além do normal, foi perscrutar a alma do homem do terceiro milênio cujo caráter deteriorou-se bastante em analogia ao homem do fim do século XIX. Porém, Machado e nós  temos  consciência de que persistem as vaidades fúteis, as hipocrisias, as ambições desmedidas, as invejas, a ociosidade, as traições, os adultérios- imaginados ou efetivados- os impulsos contraditórios, tudo isso no mais recôndito do ser humano, na sua indecifrável intimidade, devassada apenas pelos olhos que vêem além das aparências. O nosso escritor  foi possuidor de tamanha densidade psicológica, que nenhum outro até então tivera extraindo das coisas mínimas do seu tempo conclusões máximas sobre a humanidade.           
        Machado de Assis continua, pois, no mesmo lugar conquistado em nossas letras por sua determinação e por sua superação. Vários motivos fizeram-no admirável. Citarei primeiro o fato de ele ter composto uma obra que denota independência em relação aos estilos pelos quais transitou: Romantismo, Realismo, Naturalismo, Impressionismo, Parnasianismo, Simbolismo além de claras nuances do Barroco com o seu jogo paradoxal. “Carnavalizou a Literatura Brasileira” como disse Ivan Teixeira. Rompeu com o unívoco e criou um estilo experimental, com múltiplas vozes e variadas tendências. Liberou a imaginação e incorporou à estrutura do romance a diversidade do indivíduo e da sociedade. Desse modo, Machado desfez antigas amarras e enxergou caminhos infindos como também criou outros atalhos.
            
        Fixou o Rio de Janeiro com fidelidade, retratando a elite, homens ricos e ociosos, mulheres fascinantes, desfilando pelos salões perfumados a mostrar o colo atraente, muitas vezes, “de alabastro”, os braços bem torneados, êxtase para o autor num princípio de delícia antecipada, encantado que era por essas partes do corpo feminino.
            
        Depois, ele realizou a grande temeridade de vanguardista, já que, não alcançando a denominação da materialidade dos signos, usou esse recurso com a propriedade que lhe era peculiar. No capítulo 55 dasMemórias, há o vanguardismo concretista com a finalidade de ocultar o óbvio com uma sutileza inenarrável. Esse poder inventivo do escritor não foi superado, mesmo no Modernismo. As reticências substituem a cursividade do êxtase do encontro amoroso. Esse e outros capítulos ganham a disposição de poesia concreta.
        Cabe aqui falar de outra inovação: o leitor incluso. É esse uma forma de personagem, com existência independente da presença do leitor empírico. Algo mais importante que um simples vocativo, pois tem vida própria na ficção do texto. Tem gestos, fisionomia e postura mental. Foi uma forma que Machado encontrou de dinamizar o discurso narrativo. Sua função é a de proporcionar um contraponto dialógico com o narrador, ou seja, assegurar-lhe um interlocutor. Assim, a narrativa fica mais flexível, perde a univocidade de uma mensagem apenas entre autor-leitor para admitir os imprevistos de uma conversa ao vivo. A essa estratégia se chamadigressão ou estilo ziguezagueante. E a digressão machadiana comporta sempre uma reflexão sobre o discurso o que se chama de metalinguagem, visto que explica ou investiga os componentes retóricos do texto.Por essas inovações supracitadas, Machado está em consonância com o nosso tempo.
        Não poderia deixar de citar a elegância do estilo machadiano, envolvendo todo o texto, porém chamando a atenção para o que podemos chamar de brevidade dialética. E o fato de o escritor produzir o máximo de sentido com o mínimo de palavras. Há o espírito de síntese e fragmentação. Os romances nunca são longos, nem contêm sequências estendidas. Frases curtas; capítulos, curtíssimos. Trata-se de uma estrutura metonímica que insinua o todo pela apresentação das partes. O emprego das palavras tem uma profundidade espiritualizada, levando a frase ao princípio universal da poesia. Machado chega facilmente à linguagem figurada, oblíqua e insinuante. Foi o primeiro escritor a pensar, sentir e narrar através de imagens, por vezes, compondo longas sequências alegóricas.
        Outra característica do escritor que o faz um artista do momento é a paródia, a recriação irônica de qualquer estrutura consagrada pela tradição. E uma das marcas fundamentais do humor desse imortal. A exemplo, para compreensão das paródias, convenhamos que “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é como paródia do romance convencional. Ainda convém registrar que as estruturas mais parodiadas por ele são os sistemas filosóficos e os estilos literários. Pode-se afirmar que toda a sua obra é uma paródia da existência. Como não há paródia sem ironia, o humor machadiano é uma marca registrada, único pela sua sutileza. Ora critica o ser humano e suas fraquezas; ora  demonstra compaixão pelo homem.
        Mais um juízo de valor da obra do escritor está na sua capacidade de traçar intertextualidade, num tipo de ambivalência intencionalmente entre um texto que se escreve e outros que o antecederam na história da cultura. Com isso, ele renova a produção textual, embora possa haver algumas dificuldades de entendimento  para o leitor de pouca intimidade com as letras, visto que a intertextualidade nem sempre é paródica. É séria. Um exemplo ocorre no capítulo 26 das Memórias em que ele usa as palavras sagradas da criação do mundo: “No princípio, era o verbo e o verbo fez-se carne”, pelo fato de Virgília ter surgido primeiro como nome; depois, como personagem.
        Neste espaço não cabe a riqueza da construção machadiana, mas estas poucas palavras não poderiam deixar esquecida uma de suas verdades  que tanto incomodam os leitores reflexivos: “o homem vale pela opinião dos outros homens” o que  reflete uma inversão de valores, tão marcante em nossos dias, nestes tempos em que o ser humano desconhece-se e, na ânsia de valorizar-se, troca a essência pela aparência.

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