BARROCO-UMA SÍNTESE
BARROCO: Sensorial (conhecimento e expressão da realidade através dos sentidos.
1)Metáfora: o escritor barroco prefere a metáfora à comparação. Com ela o poeta revela semelhanças profundas (e subjetivas) que descobre na realidade.
2)Antítese: dualismo, bifrontismo, fusionismo, dois polos.
3)Paradoxo: opõe-se ao racionalismo renascentista
.
4)Hipérbole: grandiosidade e pompa.
5)Prosopopéia: realidade dinâmica.
6)Presença de palavras semelhante quanto à sonoridade: (aliteração, assonância, eco, paranomásia...)
7)Símbolos que traduzem efemeridade, a instabilidade das coisas: fumaça, vento, neve, chama, água, fogo, espuma e outros.
8)Interrogações
9)Emprego muito frequente de ordem inversa: hipérbato, anástrofe e sínquise.
10)Gradação“Oh, não aguardes que a madura idade        
                          Te converta essa flor, essa beleza,
        
                          Em terra, em cinzas, em pó, em sombras, em nada.” (G.M.)
                                                              Temas mais frequentes da Literatura Barroca

1)Fugacidade da vida e das coisas;
2)A morte: expressão máxima da fugacidade das coisas;
3Concepção do tempo como agente da morte e da dissolução das coisas;
4)Castigo como decorrência do pecado;
5)Arrependimento;
6)Narração de cenas trágicas;
7)Erotismo;
8)Sobrenatural;
9)Misticismo; 
10)Apelo à religião;
 
11)Conflito entre o eu e o mundo.


                                                                                                      Quadro Comparativo


Renascimento:                                        Barroco
1)Razão                                                    1)   Razão/fé
2)Unidade                                                 2)   Dualidade
3)Contenção                                             3)   Intensidade
4)Claridade                                               4)   Obscuridade
5)Otimismo                                               5)   Pessimismo
6)E)quilíbrio                                              6)   Desequilíbrio
7)Linha reta                                              7)   Linha curva
8)Belo/puro                                               8)   Belo/feio

                                                                       Segundo a Teoria de Wölfflin

1)Linear, sentida pela mão;                                             1)  pictórica: seguida pela vista;
2)Composta em plano, de jeito a ser sentida;                 2)  composta em profundidade, de jeito a ser seguida;
3)Partes coordenadas de igual valor;                              3)  partes subordinadas a um conjunto;
4)Fechada, deixando fora o observador;                         4)  aberta, colocando dentro o observador; 
5)Claridade absoluta                                                        5)  claridade relativa.

                                                                        Texto com influência barroca

Certas Coisas
Não existiria som se não             ANTÍTESES: som x silêncio / luz x escuridão /
 Houvesse o silêncio                           luz x escuridão/  dia x noite
Não haveria luz se não
Fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noitenão e sim.

Cada voz que canta o amor                voz que canta x não diz tudo  / cala x fala
Não diz tudo que quer dizer
Tudo que cala                                         silenciosamente x eu te falo ( evolui para o PARADOXO Fala mais 
Alto no coração
Silenciosamente
Eu te falo com paixão

Eu te amo calado                        calado x sinfonia  /  medo x desejo  / silêncio x som
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncio e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som
Tem certas coisas que eu não sei dizer.       
                           (SANTOS, Lulu e MOTTA, Nélson)
 

DOIS polos:            presença X ausência
                   
                               amor X solidão
                   
                               ousadia X medo


CULTISMO - É o jogo de palavras, o estilo trabalhado. Predominam hipérboles, hipérbatos, metáforas, paradoxos, trocadilhos. O cultista usa de pompa desnecessária, conseguindo envolver o leitor e o ouvinte que dele se distancia, sem o compreender, apenas admirando-o. dirigem-se aos sentidos.

CONCEPTISMO - É o jogo de idéias e de conceitos, de conformidade com a técnica de argumentação. Usam antíteses e paradoxos ou juízos contrários ao senso comum. Inteligência.



SE EU QUISER FALAR COM DEUS
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós,
Tenho que apagar a luz,  -> renúncia, anulamento
Tenho que calar a voz,
Tenho que encontrar a paz,  -> entrega
Tenho que folgar os nós
dos sapatos, da gravata,  ->  oferecimento
dos desejos, dos receios,Tenho que esquecer a data,   ->  passividade, despojamento
Tenho que perder a conta,
Tenho que ter as mãos vazias,
Ter a alma e o corpo nus.  -> humildade
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor,
Tenho que comer o pão
que o diabo amassou,  -> humilhação para se redimir dos pecados
Tenho que virar um cão,Tenho que lamber o chão    ( Continua a humilhação nos versos que se seguem, 
Dos palácios, dos castelos      resultado do “Carpe diem”,  do pessimismo e do
suntuosos do meu sonho,       dualismo do Barroco )
Tenho que viver tristonho,
Tenho que me achar medonho,
E, apesar do mal tamanho,
alegrar meu coração.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar,
Tenho que subir aos céus,
sem cordas pra segurar,
Tenho que dizer adeus,
Dar costas, caminhar
decidido pela estrada
que, ao findar, vai dar em nada,  -> insegurança, medo, resultado da Contra-
Nada, nada, nada, nada                      Reforma. No final a DESCRENÇA.
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.                              
                        (Gilberto Gil)




Gregório de Matos  -> Divisão da sua poesia:
1) Lírica Amorosa:
- louva a mulher e a trata como mulher desejada;
- não ao idealismo / prazer; beleza física;
- estilo refinado e vigoroso;
- temas: sentimento da brevidade da vida... temperados com o pessimismo barroco.
2) Poesia Satírica:
- Hoje: extremamente original – foge dos padrões barrocos estabelecidos;
- painel crítico, saboroso, pitoresco e pessoal;
- linguagem riquíssima / termos locais, “brasileiros”;
- inicia a poesia preocupado com a “realidade brasileira”;
- painel de personagens que circulavam pela cidade da Bahia;
- parte mais conhecida de sua obra: Boca do Inferno. 
3) Lírica Religiosa:
- utiliza-se de referências bíblicas, num estilo culto;
- exprime as tensões e dualidades do espírito barroco;
- grande tema: amor místico: desdobra-se em subtemas: pecado X necessidade de perdão/ apelo da carne X obrigações da fé/ culpa X arrependimento/ angústia entre razão humana e fé divina.


Desenganos da vida humana, metaforicamente

É a vida da vaidade, Fábio, nesta vida,       Dois polos: vaidade x efemeridade da vida.
Rosa, que da manhã lisonjeada,                  Metáforas para a vaidade: rosa, planta e nau
Púrpuras mil, com ambição dourada,       
Airosa rompe, arrasta presumida. 

É planta que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida. 

É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias, apresta, alentos preza: 

Mas
 ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nauferro a plantatarde a rosa?                                                     
                                       (G.M.)



                              - rosa   
Vaidade                 - planta        efemeridade
                      
                              - nau
 

 Rosa 
-> planta -> nau, planta e rosa  ( recolhe as metáforas em ordem decrescente )
   
Vaidade -> 
Fênix -> resistente, renasce das cinzas. O poeta arquiteta gradação crescente e decrescente.


Tempestade (G.M.) 

Na confusão do mais horrendo dia             O poeta apresenta o FEÍSMO Barroco.
Painel da noite em tempestade brava        Usa METÁFORAS, HIPÉRBOLES E GRADAÇÃO.
fogo com o ar se embaraçava
Da terra e água o ser se confundia. 

Bramava
 o mar, o vento embravecia
A noite em dia, enfim, se equivocava;
E com estrondo horrível que assombrava,
Terra se abalava e estremecia. 

 desde o alto dos côncavos rochedos,
 desde o centro aos altos obeliscos,
Houve temor nas nuvens e penedos, 

Pois dava o céu, ameaçando ricos,
Com assombroscom pasmos com medos
Relâmpagos, trovões, raios, coriscos.



Soneto (G.M.) 

O pecado engrandece a Deus, por lhe dar
oportunidade de perdoar. (Deus é bom, mas precisa
dos pecados para mostrar sua
bondade)

 Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado
De vossa alta piedade me despido
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tenho a perdoar mais empenhado 

Se basta a vós irar tanto pecado
,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
(Se não houvesse pecadores, Deus não
poderia mostrar a sua misericórdia)


Que a mesma culpa que voshá ofendido
Vos tem para o perdão lisonjeado. 

Se uma ovelha é já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História: 

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada!
Cobrai-a, e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória. 

Comentário:
Deus se sente mais recompensado em recuperar uma ovelha a contar só com as ovelhas certas, sem pecado. 

Soneto
Sete anos a Nobreza da Bahia
Serviu a uma Pastora Indiana, e bela,
Porém a Índia, e não a ela,
Que à Índia só por prêmio pertencia. 

Mil dias na esperança de um só dia
Passava contentando-se com vê-la:
Mas Fr. Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o violão, quitou-lhe a fidalguia. 

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sua Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço, e de uma goiva: 

Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão impo amor tão sua Noiva.

Paródia a um célebre soneto de Camões. G.M. ironiza a concepção camoniana de amor, apresentando o casamento movido por interesses. 

Soneto – (metonímias, exclamações e interrogações .A interrogação para levar à reflexão.
Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramados!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que um peito abrasas escondido,                   
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.


Poema, acima,  tipicamente barroco na linguagem rebuscada e confusa. Acúmulo de figuras de linguagem realça o caráter barroco do texto, embora a temática amorosa seja evidente. Lágrimas da amada: expressão do seu fervoroso amor.

Soneto
Neste mundo é mais rico o que mais rapa
Quem mais limpa faz, tem mais carepa
Com sua língua ao nobre o vil decepa
Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa
Quem menos falar pode, mais increpa
Quem dinheiro tiver pode ser Papa.

flor baixa se inculca por Tulipa
Bengala hoje na mão, ontem garlopa
Mais isento se mostra, o que mais chupa

Para a tropa do trapo vazo a tripa, 
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa. 

Soneto, supracitado, satírico, na linguagem e no conteúdo. Crítica ao processo de ascensão social na Bahia seiscentista, associando riqueza com roubo. Linguagem ferina, atinge o clero: corrupção.


Soneto
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, o dia,

Enquanto com gentil descortesia
O ar que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria,

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada. 

Oh, não aguardes que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em , em sombra, em nada.

Soneto lírico-amoroso| Poeta tematiza o “carpe diem”.Tempo à beleza e juventude | Alta sensualidade à aproveitamento de atributos físicos da amada.

Que falta nesta cidade?
Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha
Por mais que a fama a exalta
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha. 

Quem a pôs no socrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E o maior desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio, e Sandeu,
Que não sabe o que perdeu
Negócio, ambição, usura. 

Sátira que revela impetuosidade e modernidade do poeta. Volta-se contra situações, instituições, pessoas: fidalgos, mulatos, gente do povo e do governo – todos são objeto de seu escárnio.


Ao braço do Menino Jesus quando apareceu
todo sem a parte não é o todo,
parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo. 

Em todo o Sacramento está Deus todo
,
todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo. 

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte. 

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Não disse as partes todas deste todo.


Soneto religioso construído a partir da idéia da ONIPRESENÇA DIVINA. Deus está presente, TODO, em toda a parte. O jogo de palavras, idéias, é típico do aspecto conceptista do Barroco. 

Barroco – Duração: século XVII e primeira metade do séc. XVIII



1 – Limites cronológicos: 1601 – Prosopopéia - Bento Teixeira                                     
                                        1768 – Obras Poéticas – Cláudio Manoel da Costa
 

2 – Origem: Espanha (Gongorismo)


3 – Outras denominações:  Eufuísmo (Inglaterra)                                         
                                            Silesianismo (Alemanha)
                                         
                                            Marinismo (Itália)
                                         
                                            Preciosismo (França)



4 – Panorama Social: Europa – luta entre aristocracia e burguesia / luta entre adeptos da Reforma e adeptos da Igreja Católica / Contra-Reforma 

5 – Península Ibérica: submissão de Portugal à Espanha (de 1580 a 1640) / predomínio da aristocracia / Absolutismo / Fortalecimento da Igreja Católica / Inquisição / Censura / Companhia de Jesus.

Soneto (G.M.)
Nasce o sol e não dura mais que um dia       A temática da EFEMERIDADE da vida.
Depois da luz, se segue a noite escura,               Dois  polos: firmeza x inconstância
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luzpor que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia? 

Mas no sol e na luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância
na alegria sinta-se tristeza 

Começa o mundo
, enfim, pela ignorância
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.


Conselhos a Qualquer Tolo para parecer Fidalgo, Rico e Discreto – 
(Ataca a Sociedade da Bahia – é irônico, mordaz. A cidade vive de luxo e fidalguia, G.M. os desmacara) 

Bote
 a sua casaca de veludo,
E seja capitão sequer dois dias,
Converse à porta de Domingos Dias,
Que pega fidalguia mais que tudo. 

Seja um mangano, um pícaro, um carnudo,
Vá a palácio, e após das cortesias,
Perca quanto ganhar nas mercancias,
E em que perca o alheio, esteja mudo. 

Ande
 sempre na caça e montaria,
 nova soluçãonovo epíteto,
E diga-o, sem propósito, à porfia. 

Que, em dizendo facçãopretextoafeto,
Será no entendimento da Bahia,
Mui fidalgomui rico e mui discreto.
(Poesia satírica com título longo à marca dos exageros barrocos.)









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