INTRODUÇÃO: Lidime representante da raça brasileira, concilia no próprio sangue a tríplice dimensão da raça que amálgama sentimento, virtudes e defeitos do negro, do branco e do índio.

               É esse o cantor de seu povo, o mestiço que extravasa brasilidade nas letras imortalizando o índio natureza pura, fruto da terra, não tocada ainda pelo seu colonizador.

               Sua exaltação provém, além do sentimento de brasilidade, de uma veneração aos antepassados, revivendo em seus sentimentos a mesma pureza original que os uniu.

BIOGRAFIA: Muitos elementos de sua biografia explicam sua obra: filho ilegítimo dos amores de um comerciante português, João Manoel Gonçalves Dias, com a mestiça casada e separada do marido Vicência Mendes Ferreira.

               Mais tarde João Manoel despediu a amásia e se casou com Adelaide Ramos de Almeida e o poeta ficou separado da mãe.

               Há dúvidas sobre a mestiçagem da mãe. Supõe-se que ela fosse cafona (mestiço de índio e negro).

               Gonçalves Dias seria assim com a música brasileira: “Flor amorosa de três raças tristes.”

               Ele devia ter certa rijeza de caboclo, do contrário não chegaria aos 41 anos, pois dez antes de sua morte uma tosse o incomodava muito.

               Seriamente enfermo dos pulmões, segue para Europa em busca de melhora. Frustrados seus empenhos pela saúde, regressa da França no brigue “Ville de Boulongne”, o qual naufragou nos baixos de Astins, perto do Maranhão, sepultando nas ondas o poeta, com apenas 41 anos de idade.

               De sua autoria a conhecida “Canção do Exílio” de que foram apresentados versos na letra do Hino Nacional Brasileiro e para a Canção do Expedicionário.

(ANTÔNIO GONÇALVES DIAS, 1823 – 1864 CAXIAS MA)


ÉPOCA EM QUE VIVEU – HISTÓRIA – acontecimentos políticos, sociais e econômicos.

               Nasceu o poeta no mesmo ano em que foi proclamada a Independência.

               Aos 15 anos (1838) chega a Portugal para fazer seus estudos, onde encontra um ambiente de efervescência romântica, originado pela publicação do poema “Camões” de Garret. Em Coimbra ligou-se ao grupo medievalista. Além da influência portuguesa sofreu influência inglesa, francesa, espanhola e alemã.

                          

ESTILO DE ÉPOCA – importância da obra na época em que viveu.

                Gonçalves Dias se destaca na medíocre panorama da primeira fase romântica, pelas qualidades superiores de inspiração e consciência artística. Contribuiu, ao lado de Alencar, para dar à literatura uma categoria perdida com os árcades.

                Primeiro poeta autenticamente brasileiro na sensibilidade e na temática, e das mais altas vozes do nosso lirismo.

                A maioria dos poetas e jornalistas consideravam Gonçalves Dias como o verdadeiro criador da literatura “Nacional”.

               Em 1849, Álvares de Azevedo via nele a fonte de inspiração para os povos, e por meio do livro renovador “Os Primeiros Cantos”, regenerador da “Rica poesia nacional de Basílio da Gama e Durão”.

                Alexandre Herculano falou de “Primeiros Cantos” com expressões bem lisonjeiras, esse artigo causou muita impressão em Portugal e Brasil, mas já nesse tempo o povo já tinha adotado o poeta, repetindo e cantando em todo o Brasil. Tudo isso se justifica, porque neles as jovens gerações aprenderam o Romantismo.

               Embora os sucessores hajam destacados, a “poeira nacional”, o indianismo, nele encontraram muito mais.

O DRAMÁTICO GONÇALVES DIAS

CARACTERÍSTICAS

DRAMA – fundo histórico, tirado de ambiente europeu.

    -    Lances emotivos e de movimento.

    -    Ciúme (linha mestra do enredo).

    -    Sempre melancólico: “desejar é sofrer”.

    -    Dor acrescida por mórbida imaginação.

    -    Declamatório e fictício.

    -    Trágico.

    -    Preocupação pela natureza e pormenores sentimentais desvia-o do fio narrativo.

    -    Desfecho sempre trágico.

“Do naufrágio da vida há de arrojar-se

a praia tão querida, que ora deixo

tal parte o desterrado; um as vagas

não de os seus restos rejeitar na praia

donde tão novo se partira, e onde

procura a cinza fria achar jazigo...”     (Adeus aos amigos do Maranhão).


TEATRO

          Leonor de Mendonça, Boabdil, Patkull e Beatrice de Cenci.

LEONOR DE MENDONÇA: melhor peça de teatro histórico em Língua Portuguesa.

    -    Inspirada na tragédia que a fatalidade fez cair sobre a cabeça da desgraçada Leonor

    -    Apurou todas as qualidades do escritor dramático.

    -   Comenta o dramaturgo: defeitos dos padrões sociais e morais da época – casamento imposto, escravidão da mulher ao marido. Sem estes defeitos, drama e crime não teriam acontecido.

    -    Aproveitou o tema “Otelo” de Shakespeare, mas originalidade.

BEATRICE DE CENCI

- Vetado pelo Conservatório de Arte Dramática do Rio de Janeiro. (imoral, tema incesto).

POESIA

          I Juca Pirama

   -    Épico além de dramático.

   -    Significação: “o que há de ser morto” ou “o que é digno de ser morto”.

   -    Verdadeira obra-prima.

   -    Tentaram encená-la.

   -  É extraordinariamente belo para ser lido e não para ser representado – teor de dramaticidade.

   -    É o ritmo associado à semântica e à técnica de expressão.

   -   Transfere para as personagens “o que ele, só ele, não diria de moro tão viril e tão patético”. Nota: “Seu autobiografismo é, pois, a decorrência de um caso pessoal, não o contágio romântico”. “Lerás porém algum dia/ Meus versos, d’alma arrancados,/ D’amargo prantos banhados,/ Com sangues escritos; e então/ Confio que te comovas,/ Que a dor te apedie,/ Que chores, não de saudades/ nem de amor, - de compaixão”. (Ainda uma vez – Adeus. /XVIII/)

O ÉPICO EM GONÇALVES DIAS

               “Imaginei um poema... como nunca ouviste falar de outros; magotes de tigres, de quatis, de cascavéis, saputicaieiras e jambeiros, de palmeiras nem falamos, enfim, um gênesis americano, uma ilíada brasileira, uma criação recriada”.

Épico – canta o índio que é a própria substância de seus poemas.
Épico-dramático – “I Juca Pirama”.
Épico – “Os Timbiras”.
“Os Timbiras” – obra capital pela extensão que teria (16 cantos)
4 cantos publicados

1º canto: Itajubá, chefe timbira, manda um emissário entender-se com os gamelas, seus inimigos.

2º canto: Peaga pede a Tupã inspiração para os guerreiros.

3º canto: os guerreiros contam os seus maus sonhos.

4º canto: a paz proposta aos gamelas não é aceita.


CARACTERÍSTICAS DE “OS TIMBIRAS”

A)     Destaca o domínio do selvagem pelo branco

“Do povo americano, agora extinto,

hei de cantar na Lira.”.

B)     Atitude épica humilde:

“Não me assentei aos cimos do Parnaso”.

“Cantor das selvas entre bravas matas”.

C)     Narrativa cheia de cor e movimento  

“Vem primeiro Juca de fero aspecto,

de uma onça bicolor cai-lhe na fronte

a pel’vistosas; sob as hirtas cerdas,

como sorrindo, alvejam brancos dentes

e nas vazias órbitas lampejam

dois olhos, fulvos, maus. No bosque, um dia, a traiçoeira

fera a cauda enrosca

a mira nele o pulo do taoape

Juca desprende o golpe, e furta o corpo.

Onde estavam seus pés as duras garras

morderam, beija a terra e fera exangue

e, morta, ao vencedor tributa um nome”.

D)     Animismo Gonçalvino

E)      Elemento onírico: maravilho da epopéia

F)      Tom lírico (quando a mensagem do louco Piaíba é levada a Ogib).


O LIRISMO DE GONÇALVES DIAS

INTRODUÇÃO

               Recentemente, Othon Moacyr Garcia mostrou que sua poesia lírica “é parte mais volumosa e, até certo ponto, a parte mais importante de sua obra”.

                 A sua poesia é marcada pelo tropicalismo do mundo americano, nela predominando quantitativa e qualitativamente a temática da Luz e do Fogo (Luminismo e Igneísmo).

CONCEPÇÃO DE POESIA

                “Casar assim o pensamento com o sentimento – o coração com o entendimento – a idéia com a paixão, colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isso com a vida e natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, a poesia, grande e santa. A poesia com eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir”.

         Pode-se notar aí os elementos mais característicos do espírito romântico:

subjetivismo
fantasia e sentimentalismo
capacidade de sentir (romântico) e incapacidade de definir.
CARACTERÍSTICAS DA LÍRICA GONÇALVINA

               Em toda a sua lírica nota-se: uma funda nostalgia, a mágoa dos amores contrariados pelo destino, o consolo que tirava do espetáculo da natureza, do afeto dos amigos e da crença religiosa. Em tudo, aquele sentimento de insatisfação, onde se identifica o famoso “mal du siecle”.

        “Uma febre, um ardor nunca apagado,

         Um querer sem motivo, um tédio à vida

         Sem motivo também – caprichos louros,

         Anelo doutro mundo e doutras coisas.

         -A tristeza que o acompanhou durante a sua vida lhe vinha de sua obscura origem:

        “Meu Deus, Senhor Meu Deus o que há no mundo

         que não seja sofrer?

         O homem nasce e vive um só instante

         E sofrer até morrer”.

               Sua doença parece justificar as suas excitações nervosas, a tristeza e a inconsolável busca do amor, um constante pensamento ou desejo da morte. Em uma carta ao seu amigo Alexandre Teófilo Leal confessa: “vida é sofrer... é fantasiar dores e sofrimentos. Momentos há na vida de desespero tão sombrios e intensos em que até a tua amizade se me torna em tormento.”

         A dor e a poesia estão sempre juntas, como o poeta declara:

         “A poesia é dor, é sofrimento, é espinho da vida a estranhar-se no coração”.

         “Quem sofre pode não ser poeta, duvido que não sofra”.

CLASSIFICAÇÃO DE SEU LIRISMO

         Podemos considerar quatro aspectos:

LIRISMO IDÍLICO – Gonçalves Dias é o cantor da saudade e do amor à terra natal. Observamos isso em sua famosa “Canção do Exílio”:

               “Minha terra tem palmeiras

       onde canta o sabiá

       as aves que aqui gorjeiam

               não gorjeiam como lá.”

               Já de início, pode-se notar o virtuosismo da técnica do poeta. Usa ritmo binário nos versos que se referem ao Brasil. Muda de ritmo nos versos que se referem a Portugal.

Portugal: Onde canta o sabiá

                 As aves que aqui gorjeiam – heterorrítmico

                A respeito do sabiá que canta na palmeira houve quem o criticassem, por isso, afirmando que o sabiá que pousa em palmeiras (o sabiá poça) é o único que não canta.

                A isso responde Cassiano Ricardo: “SE o sabiá não substitui a sintaxe, essa faz o sabiá cantar na palmeira, e mui legitimamente. O sabiá de Gonçalves gorjeia até hoje. Ninguém conseguiu o emudecer.”

               Segundo Afrânio Coutinho: “O sabiá cantador merecia uma palmeira pela sua atitude e elevação. Ao tirá-lo da laranjeira e colocá-lo na palmeira o poeta corrigiu um erro da natureza.”

       Gonçalves Dias foi sempre um nostálgico, preocupado com o exílio.

       Nota-se isso nos versos abaixo:

       “Em cismar sozinho à noite”

       Não permita a Deus que eu morra

       sem que eu volte para lá.”

               A ausência de qualificativos valoriza os substantivos do poema. Segundo José Guilherme Nerquior, todo poema é qualitativo: todo ele qualifica em termos exaltados, valor a terra natal:

       “Nosso céu tem mais estrelas

       nossas várzeas têm mais flores

       nossos bosques têm mais vida

       nossa vida mais amores.”

               O encadeamento, o paralelismo e a repetição, segundo Aurélio Buarque de Holanda, dão ao poema um sentimento de funda e sossegada, de quase religiosa nostalgia:

       “Minha terra tem palmeiras”

       “Minha terra tem primores.”

LIRISMO AMOROSO – O grande amor de sua vida foi Ana Amélia Ferreira do Vale, que serviu de inspiração para muitos de seus poemas. Conheceu-a quando era uma menina de anos e dedicou-lhe o poema “Seus Olhos”. Eis alguns versos:

       “Seus olhos tão negros, serenos tranqüilo

       às vezes, vulcão.”

       “Eu amo esses olhos que falam de amor

       com tanta paixão”.

Mas a mão de Ana Amélia lhe seria recusada, mais tarde, por causa de sua origem. Após receber uma carta da mãe da mulher amada, escreveu o poema “Se se morre de amor”.

       “Se se morre de amor! – Não se morre

       Quando é fascinação que nos surpreende

       Mas isso amor não é; isso é delírio”.

Retoma aqui a concepção trovadoresca, em que o amador se confessava submisso e serviçal a dama pretendida:

       “Amá-la sem poder ousar dizer que amamos.

       Arder por afagá-la em mil abraços.

       Isso é amor, e desse amor se morre”.

O poeta não teve forças para enfrentar os obstáculos. Casa-se com Olímpia da Costa, mas não se esquece de Ana Amélia. Dedica-lhe, então, o poema “Como és tu?” que se assemelha a um sonho em que o poeta vê a amada casando-se com outro:

       “Como! És tu essa grinalda

       De flores de laranjeiras...

       Branco véu, nuvem ligeira

       Sobre teu rosto a ondear!”

Embora sofra o poeta não a censura;

       “Fui eu quem te dei exemplo...

       deixa-me aqui a chorar”.

Deseja-lhe felicidade:

       “Vai e que os anjos derramem

       sobre ti flores venturas,

       e que entres na casa estranha

       como uma bênção dos céus!”

O poeta casara-se com Olímpia da Costa, mas esta além de ciumenta, não soube compreendê-lo, nem procurava nada fazer para aliviar seus padecimentos.

O poeta se queixa:

       “Ah! Que eu morra sem provar ao menos

       sequer por um instante nesta vida,

               Amor igual ao seu”

               “Dá Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre

               uma alma que me entenda, irmã da minha”.

O poeta mais tarde encontra-se, casualmente, com Ana Amélia, que se casara com um negociante. Dedica-lhe então o poema “Ainda uma vez – Adeus”.

Ele procura revelar o sentimento que por três anos antes fizeram-no renunciar a própria felicidade:

-Seu amor ainda permanece vivo:

               “Enfim te vejo! – enfim posso,

               Curvado a teus pés dizer-te

               Que não cessei de querer-te”.

-Conta seu sofrimento:

               “Tomou-lhe tédio da vida

               passos da morte senti”.

-Somente a esperança revê-la o manteve vivo:

               “No último arcar da esperança

               tu me vieste à lembrança

               quis viver mais e vivi!”

-Mas, Ana Amélia jamais perdoou por sua covardia. O poeta tenta justificar antes a indiferença da amada:

               “Julgas-te acaso ofendida?

               Mas que tens? Não me conheces?

               De mim afastas teu rosto?”

               “Mas lembra-te aqueles feros

               Corações que se meteram

               Entre nós; e se venceram.

               Mal sabes quanto lutei”

-Fala-lhe porque desistiu da luta:

               “Oh! se lutei... mas devera

               expor-te em uma pública praça

               como um alvo à população

               um alvo aos dictérios seus?”

-O poeta afirma que se sacrificara para que ela fosse feliz:

               “Ela feliz (me dizia)

               seu descanso é obra minha”

Mas Ana Amélia não foi feliz e o poeta se arrepende de ter abandonado a luta:

               “Enganei-me... – Horrendo caos

               nessas palavras se encerra”.

               “Pensar que te vejo agora

               por culpa minha infeliz”.

               “És doutro agora, e pra sempre!”

               “Eu o mísero desterro

               volto chorando o meu erro”

-Pede-lhe perdão:

               “Perdão, aos teus pés curvado

               viver contente e feliz”.

-O poeta parece que pressente que não voltará para junto de seus entes queridos:

               “Adeus qu’eu parto senhora;

               negou-me o fado inimigo

               passar a vida contigo

               ter sepultura entre os meus”.

-E de fato isso aconteceu. Ao regressar ao Brasil, em 1864, no navio “Ville de Boulogne” este naufragou nas costas do Maranhão  e Gonçalves Dias teve por túmulo o mar que ele tanto exaltara.

LIRISMO PANTEÍSTA – Ao lado do lirismo amoroso, destaca-se em sua obra, a contemplação panteísta (há por toda sua obra um grande sopro panteísta, um permanente idílio com a natureza de quem ele era um eterno namorado – Ronald de Carvalho e o sentimento religioso, associando Deus à natureza).

               Dentre os elementos da natureza exaltou: a tarde, a noite, o mar, o céu brasileiro, os rios, e as florestas:

A tarde: “Oh! tarde, oh bela tarde, oh meus amores:

               Mãe da meditação, meu doce encanto”

A noite: “Eu amo a noite solitária e muda”.

O mar: “És poderoso sem rival na terra”.

O céu: “Nosso céu tem mais estrelas”.

Os rios: “A corrente, onde bela se mirava”.

As florestas: “Nossos bosques têm mais vida”

                        “Ama o prado florido, a selva umbrosa”.

A natureza despertou-lhe fundas emoções íntimas: amor, tristeza, êxtase, deslumbramento:

               “Derramai os meus lamentos

               nas surdas asas do vento”.

               “És bela a noite, quando grave estende

               sobre a terra dormente o negro manto”.

               “Mas nessa escuridão, nesse silêncio

               um quê triste que nos lembra a morte.”

A natureza era a mãe piedosa e boa que tinha uma alma igual a sua:

               “...ama a solidão, ama o silêncio

               ama o prado florido, a selva umbrosa”.

Dadas suas tendências para o devaneio nostálgico, explica-se que tenha preferido as sombras da noite às claridades matinais:

               “Eu amo a noite solitária e muda!”

               “Que linda noite! Estrelas embalsamando

               este silêncio harmônico da terra.”

               “Que sereno prazer na alma cansada,

               Não espreme, não filtra, não infunde?”

Busca o silêncio da noite para cismar seus sofrimentos:

               “Irei cismar sozinho à sós com a noite

               Em minhas penas cruas”.

A lua desperta-lhe sentimentos vagos, pungentes, doces:

               “Eu te amo, ó lua cândida

               no giro sonolento

               e o teu cortejo maldito

               de estrelas e do vento

               o sopro

               que è noite dá frescor”.

Os momentos noturnos são mais harmônicos com os seus sentimentos:

               “Eu amo a noite solitária e muda”.

               “E a mágica mudez que tanto fala

               e as sombras transparentes”.

Os grandes espetáculos da natureza sempre arrastam o pensamento de Gonçalves Dias para a idéia de Deus:

               “Da voz de Jeová um eco incerto

               julgo ser teu rugir; mas só perene

               imagem do infinito, retratando

               as feituras de Deus”.


LIRISMO ROMÂNTICO – SENTIMENTAL

               Segundo Afrânio Coutinho, nos poemas de Gonçalves Dias não faltaram lágrimas;

As lágrimas que ele vê na natureza – “O talo agreste do cipó verde compridas lágrimas cortado”.

As lágrimas que seus índios choram – “Correm livres as lágrimas que choro/ Estas lágrimas, sim, que não desonram”.

As lágrimas que ele mesmo, o poeta, várias vezes chora – “Nada melhor que este pranto,/ Em silêncio gotejado”.

               Suas lágrimas não são falsas, são reais. Explicam-se pela origem indígena, bastarda e mestiça, pela vocação brasileira para a tristeza, pelos seus males (doença) e morais (repúdio da família da mulher amada).

CONCLUSÃO – De fala clara, perfeita e melodiosa, o cantor do índio brasileiro conseguiu criar o mito do selvagem fugindo à realidade que o índio desaparecido poderia representar e foi exatamente por essa impossibilidade de modelo e de confronto, segundo José Veríssimo, em História da Literatura brasileira, que conseguiu criar o mito.

               Seu lirismo, sua epopéia e seu drama alcançam beleza, vivacidade e graça porque não são inventados, mas nascidos de sua própria vida, da profundidade de seu ser que viveu intensamente o drama, a epopéia e o lirismo nacionais.

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