Este, esta, isto, esse, essa, isso: Pronomes demonstrativos, dêixis, anáfora e catáfora



Observe os seguintes pronomes demonstrativos: este, esta, isto, esse, essa, isso. Como veremos, há diferenças de usos desses pronomes quando se fala e quando se escreve. Para tentar explicar essas diferenças, recorreremos à linguística textual.

A linguística textual nos ensina que um texto, para ser bem construído, ou seja, para ter textualidade (textualidade é o que faz de uma sequência linguística um texto e não um amontoado de frases ou palavras), tem de ter, basicamente, coesão e coerência.

Como se sabe, a coerência estaria ligada à possibilidade de estabelecimento de um sentido para o texto. Tal sentido obrigatoriamente tem de ser do todo, uma vez que a coerência é global. A coesão, por sua vez, estaria ligada, segundo os estudiosos dessa área do conhecimento, às partes superficiais, lineares, em outras palavras, à questão propriamente linguística do texto. De modo que a coesão seria obtida, parcialmente, através da gramática e, parcialmente, através do léxico.

Para o objetivo do nosso estudo, nos deteremos somente aos fatores de coesão. Sendo assim, os principais fatores de coesão textual, segundo Fávero e Koch (2002, p. 38), são: a referência, a substituição, a elipse, a conjunção (conexão) e a coesão lexical. Restringindo ainda mais este estudo, de acordo com nosso propósito, vejamos o que seja a referência.

Referência é definida, por Haliday e Hasan (1973), como um movimento de recuperação de elementos, que estão tanto dentro quanto fora do texto. Para separar esses dois tipos de referência, os autores denominaram exóforas as referências situacionais e endóforas as textuais. 

As referências endofóricas se subdividem em aquelas que se referem a elementos anteriores (denominadas de anáforas) e aquelas que se referem a elementos posteriores (as catáforas). Acrescentamos aqui a noção de dêixis (ou díxis) à referência situacional (exofórica). Esquematicamente (de acordo com Fávero e Koch):


A dêixis (ou díxis) designa o conjunto de palavras ou expressões (expressões dêiticas) que têm como função "apontar" para o contexto situacional (exófora) de uma dada interação.




2.PRONOMES DEMOSTRATIVOS EM FUNÇÃO DÊITICA OU EXOFÓRICA

Acreditamos que, deste modo, facilita-se o entendimento do uso dos pronomes demonstrativos, na medida em que o deslocamos para o quadro geral da teoria da enunciação. Ou seja, para dentro da cena da interação linguística face a face, em que o uso dos pronomes demonstrativos se faz mediante a função dêitica (espacial), por quem fala no momento em que fala. Assim:


a) Esta cadeira está quebrada. (= Esta cadeira [aqui perto de mim que falo, primeira pessoa do discurso] está quebrada.)
b) Passe-me essa caneta, por favor! (= Passe-me essa caneta [que está aí perto de você a quem falo,




segunda pessoa do discurso], por favor).
c) Isso é seu? Refiro-me a essa bela gravata que está em seu pescoço.
d) Isto é meu! Estou falando deste relógio que está em meu pulso.

Pronomes demonstrativos em função endofórica ou textual


1. Por meio da anáfora (isto é, ao que precede) estabelece-se uma relação coesiva de referência que nos permite interpretar um item ou toda uma ideia anteriormente expressa no texto, por exemplo, pelos pronomes demonstrativos essa, esse, isso, como a seguir:

a) "Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece estranha." [= Essa ideia de poder comprar ou vender o céu, o calor da terra.]
b) "Busquei, primeiro, o amor porque ele produz êxtase [...]. Eis o que busquei e, embora, isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que - afinal - encontrei." [primeiro "isso" = a busca do amor; segundo "isso" = o amor].
c) Pedro foi preso como estelionatário. Esse cara nunca me enganou. [Esse cara = Pedro].

2. Um elemento de referência é catafórico quando sua interpretação depender de algo que se seguir no texto; aqui, ele será representado pelos pronomes demonstrativos esta, este e isto. Exemplos:

a) Estas foram as últimas palavras do meu mestre: seja sincero com seus discípulos.
b) Quando saí de casa, meu pai me disse isto: seja bom, ame o próximo, e respeite a vida.
c) Este foi um divertido anúncio de uma revista: "Cara, se, tipo assim, o seu filho escrever como fala, ele tá ferrado!"

“O mais importante mesmo é lembrar o papel desses pronomes no texto, na coesão textual.




Para se referir a algo que já foi dito no texto ou na conversa, deve-se usar “esse", "essa", "isso".

Exemplo: "O Copom resolveu reduzir a taxa de juros. Essa decisão já era esperada pelo mercado".

O pronome "essa" se refere à decisão citada antes, sobre o Copom.



Para se referir a algo que será citado, deve-se usar “este”, “esta”, “isto”.

Exemplo: "A decisão do Copom é esta: a taxa de juros foi reduzida".

O pronome "esta" se refere à decisão que ainda será anunciada.

“Então o pronome ‘este’, o pronome ‘esta’, o pronome ‘isto’ anunciam. O pronome ‘esse’, o pronome ‘essa’, o pronome ‘isso’retomam, recuperam”.



Outro caso

Há outro caso, usado em frases que citam duas pessoas na primeira oração e, na segunda, usam-se dois pronomes demonstrativos de modo anafórico.

Exemplo: "O delegado interrogou Pedro e Paulo; este negou a versão, aquele confirmou".

O pronome "este" se refere ao mais próximo, ao citado mais recentemente. Nesse caso, é Paulo; "aquele" se refere ao mais distante, ao anterior - no caso do exemplo, Pedro.


3. O EMPREGO CORRETO DE MELHOR  OU PIOR            
É de conhecimento geral que, quando fazemos comparações, o uso da forma sintética MELHOR

é obrigatória no lugar de MAIS BEM E MAIS BOM; MAIS MAL E MAIS RUIM.


                        EX.: Fazer uma graduação é melhor que parar no Ensino  Médio.

                        Esta cidade é pior que aquela outra.

                       

Diante de particípio, (ou de comparação entre adjetivos ) porém,  o uso da forma sintética não é correto. 

Vejam o exemplo:

Ex.:   Com uma especialização, estarei mais bempreparado para o mercado de trabalho.

 ERRADO: Com uma espacialização, estarei melhor preparado para o mercado de trabalho.



 Ele é mais bem educado que inteligente. (Certo )

Ele é melhor educado que inteligente.      ( Errado)



4. CUIDADO COM OS PRONOMES POSSESSIVOS DE 3ª PESSOA: 

4.1.seu, sua, seus, suas!!! Eles podem produzir AMBIGUIDADE. É comum esses pronomes dirigirem-se à pessoa do ouvinte ( a 2ª pessoa, o que gera incoerência também.

            

Ex.: Encontrei Marta em seu quarto. ( Até o momento, o quarto é do ouvinte ou do leitor . ) Vai depender , porém, do contexto. Encontrei Maria no quarto dela. Encontrei Maria em seuquarto, Adriana. E, poderão surgir  outras construções  coesivas e, consequentemente, coerentes.



4.1. FIQUEM ATENTOS TAMBÉM AOSDEMAIs EMPREGOS DOS PRONOMES POSSESSIVOS:
Ele poderá ter seus quarenta e cinco anos.-------------------------------------------------------
“Não os culpo, minha boa senhora...” ( João Carlos Marinho )-----------------------------
“É assim que um moço deve zelar o nome dos seus? “ ( M. de Assis)-----------------
 Eu tenho cá minhas dúvidas.----------------------------------------------------------------
O nosso homem não se deu por vencido.----------------------------------------------
“Levaria as mãos ao seu colar de pérolas em um gesto tão seu, quando não sabia o que dizer. “( Lígia Fagundes Teles)-----------------------------------------------------------



5.1. Os pronomes pessoais oblíquos átonos, muito elegantemente, substituem  os possessivos em frases como as seguintes:

a) Ninguém lhe ouvia as queixas.

b)” A borboleta pousou-me na testa.” ( M. de Assis )

c) O barulho perturba- me as ideias.

d) “ O terror lhes contorce subitamente as faces. “ (Érico Veríssimo )

e) A brisa acariciava- lhe  a face.

f) O vento despenteava- nos  os cabelos. 

  • Facebook
  • Twitter
  • Google plus